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A História dentro dos Biombos Namban

Considerado peça fundamental na coleção do Museu, o par de biombos Namban foi, entre 2000 e 2002, sujeito a uma profunda intervenção de restauro, realizada no Tokyo National Research Institute of Cultural Properties, no Japão.
A intervenção decorreu na sequência da apresentação destas peças na exposição Splendors of Portugal: Five Centuries of Art, 1450-1950, no Tokyo Fuji Art Museum.

Construídos com uma fina estrutura de madeira revestida de papel e, segundo a técnica tradicional, “recheados” com um material de enchimento, no caso, papel, os biombos Namban são por isso objetos muito frágeis.

 Durante a operação de restauro, foi necessário substituir os materiais de enchimento, pelo que os papéis que se encontravam no interior dos biombos foram retirados e devolvidos ao Museu que, entretanto, encetou uma série de tentativas para restaurar e classificar esse “recheio”, constituído por cerca de 2000 peças documentais, redigidas em japonês. No entanto, a grande especificidade destes materiais tornou difícil encontrar recursos - humanos e materiais - adequados à classificação. 
Todos os documentos foram por isso conservados nas reservas até que, recentemente, o Museu foi contactado pela Embaixada do Japão que procurava, a pedido do Professor Genjiro Ito, Presidente da Associação Kamakura-Portugal e Professor na Universidade de Kanto Gakuin, localizar esses documentos.

O Professor Genjiro Ito
com a conservadora da colecção de Arte Oriental
junto dos documentos que se encontravam
no interior do biombos
Em Julho deste ano, o Professor Genjiro Ito*, acompanhado do Embaixador do Japão, visitou o Museu Soares dos Reis e, no seu primeiro parecer acerca dos papéis que se encontravam no interior dos Biombos Namban, refere que se trata de um vasto e valioso conjunto de documentos impressos e manuscritos, datáveis entre 1583-1590, podendo desde já serem distinguidas cartas.
O facto deste conjunto de documentos pode ser datado da mesma época dos Biombos Namban assim como da presença dos portugueses no Japão, reveste-os de uma enorme importância histórica.
No final deste mês de Novembro, o Museu irá receber quatro técnicos de restauro do Kyoto National Museum, que irão proceder ao tratamento e posterior estudo dos documentos deste afortunado achado. O processo de restauro terá uma duração de duas semanas e prevê um trabalho minucioso que consiste na descolagem dos papéis que se encontram maioritariamente colados uns aos outros e dispostos em camadas sobrepostas, para que a leitura dos mesmos seja totalmente acessível.


*O Professor Genjiro Ito é um especialista e editor da publicação Mundo do Biombo de Évora, 2000, estudo realizado a partir da análise de documentos escritos em língua japonesa, designadamente cartas de Jesuítas, que se encontravam no interior de um biombos japonês pertencente à Biblioteca Municipal de Évora.

Escudo de Aparato

Na colecção do Museu guarda-se um escudo de aparato adquirido em 1943, produzido no Sul da China, no século XVI, destinado possivelmente a um nobre português.
Trata-se de um escudo que era usado como adereço, ou seja, não se destinava verdadeiramente à protecção do corpo em combate, daí a delicadeza dos materiais de que é feito e a designação “de aparato”.


Ilhas Ryukyu/ Sul da China (?)
Século XVI
Madeira revestida a couro lacado a negro e decorado com folha de ouro e pintura a óleo
Pegas em algodão e veludo fixas por ferragens em latão
Diametro 51 cm Inv. nº 63 Div MNSR

Em 2007, o seu estado de conservação era preocupante e foi então pedido ao Instituto Português de Conservação e Restauro (link?) que procedesse ao seu restauro.
A intervenção de restauro numa peça tão rara como esta é uma operação complexa, mas que proporciona uma oportunidade única de estudo e análise de materiais. Esta é aliás, a única forma de ficarmos a saber como eram produzidos os objectos, onde eram recolhidas as matérias primas, que tecnologia se empregava, que povos dominavam cada técnica e como aproveitava a “aldeia global” de então esses recursos.
Essa oportunidade de estudo foi aproveitada em cheio pelos técnicos do Instituto e por uma estudante alemã, UlrikeKörber, que fazia então o seu estágio nesse Instituto.
Para o desenvolvimento do projecto foi formada uma equipa pluridisciplinar composta por dois conservadores restauradores de mobiliário (Pedro Cancela de Abreu e Margarida Cavaco), um fotógrafo (Luís Piorro), uma Conservadora-restauradora de têxteis (Paula Monteiro)um elemento do laboratório analítico (Maria José Oliveira) além dos três bolseiros (José Carlos Frade, Maria João Petisca e Ulrike Körber)
O conhecimento profundo dos materiais e técnicas usados na produção deste escudo, sobretudo da natureza e origem dos materiais usados na produção da laca que o reveste, mas também as suas características estilísticas tem vindo a revelar informação fundamental sobre as trocas culturais e comerciais entre Portugal e a Ásia no século XVI. Como muitos outros bens de luxo provenientes da Ásia nesta época, a forma e tecnologia de produção são asiáticas mas a decoração era adaptada à procura e ao gosto europeus.

         Pormenor da barra decorativa antes de tratamento                                         Fixação da camada decorativa do reverso                                                                                                                                                                   durante tratamento 

Pormenores da decoração da zona posterior do escudo
Este escudo tem dois “parentes” próximos, um escudo semelhante pertencente ao Ashmolean Museum e um outro da Wallace Collection.
Nas representações em biombos nambam e em miniaturas mogois pintadas no século XVI e XVII veem-se representados inúmeros escudos deste tipo.
Após a intervenção de restauro e estudo, este escudo de aparato começou o que pode chamar-se uma “carreira internacional” tendo sido exibido em Boston na exposição “Portugal, Jesuits and Japan. Spirtual Beliefs and Earthy Goods”, que decorreu no McMullen Museum em 2013.