D. Pedro IV no Palácio dos Carrancas

No seio da Guerra Civil entre liberais e absolutistas, o exército liberal desembarcou em Pampolide entrando na cidade em 9 de Julho de 1832.

D. Pedro IV instalou-se no Palácio dos Carrancas, dirigindo daí as operações durante o Cerco do Porto (Julho de 1832 a Agosto de 1833) montado pelos absolutistas.



Carta Topográfica das Linhas do Porto
Coronel Francisco Pedro Moreira
História da Cidade do Porto, Tomo II, pp. 28-29, Luz Soriano
179 Grav MNSR

Retrato de D. Pedro, Duque de Bragança
José Joaquim Rodrigues Primavera, 1833
146 Lit CMP/MNSR
Retrato do Infante D. Miguel
179 Grav CMP/MNSR




























A Crónica Constitucional, órgão oficial do governo liberal era editada a partir do “Paço no Porto”.


Assinalada na planta “Porto e Arredores, Linhas de D. Pedro e Posições do Exército de D. Miguel” a “Residência de D. Pedro” no Palácio dos Carrancas.

Porto e Arredores, Linhas de D. Pedro e Posições do Exército de D. Miguel
93 Lit CMP/MNSR

Porto e Arredores, Linhas de D. Pedro e Posições do Exército de D. Miguel (pormenor)
93 Lit CMP/MNSR













“The Emperor took up his residence at the house of one of the richest man in Portugal, a perfect palace, commanding a beautiful view of Villa Nova and the country towards Coimbra”

Narrative of the Expedition to Portugal on 1832, under the orders of His Imperial Majesty Dom Pedro, Duque of Braganza, by G. Loyd Hodges Esq. London: James Fraser, Regent Street, 1833, Vol I, p. 312

(…) As illuminações e fogos de artificio, que na cidade se tinham feito para commemorar o dia 12 de Outubro, anniversario do nascimento de D. Pedro, haviam atraído grande numero de bombas e granadas, occasionando a morte de varias pessoas, e o ferimento de outros. Desde então o bombardeamento tomou por alvo mais especial a casa dos Carrancas, onde na Torre da Marca residia D. Pedro, dirigindo-se contra ella na noite de 28 do mesmo mez grande numero de bombas e granadas, e tão certas se projectaram algumas, que no immediato teve elle de mudar de quartel, passando desde então a morar na rua de Cedofeita (…) 

História do Cerco do Porto : precedida de uma extensa noticias sobre as diferentes phases políticas da monarchia desde os mais antigos tempos do anno de 1820 e desde este mesmo anno até ao começo do sobredito cerco, por Simão José de Luz Soriano, Lisboa, na Imprensa Nacional, 1849, vol. II, p. 61

A 28 de Outubro de 1832 um ataque da artilharia miguelista colocada em Vila Nova de Gaia atingiu o Palácio dos Carrancas - o incidente levou D. Pedro IV a mudar a residência para a rua de Cedofeita.

Ordem de mandar entregar os objectos para uso da
Caza do Duque de ragança
30 de Outubro de 1832
AHP Livro 26 de Próprias, A/ PUB/ 802, F1. 318
Relação dos objectos necessários p. a Caza de S.M.I.
o Snr. Duque de Bragança
30 de Outubro de 1832
AHMP, Livro 26 de Próprias, A/ PUB/ 802, F1 319






























A rua dos Quartéis, por deliberação da Câmara Municipal do Porto em 1838, passou a designar-se rua do Triunfo para comemoração da vitória liberal.

Planta da Cidade do Porto (pormenor) 
Litografia 
Camille Mangeon 
86 Lit CMP/ MNSR
D. Pedro IV regressou à cidade do Porto e ao Palácio dos Carrancas em Julho de 1834 acompanhado pela sua filha, a rainha D, Maria II, para assistir às comemoração do 1.º aniversário do final do Cerco do Porto e da vitória da causa liberal



Paço no Porto, 28 de Julho 1834 



SS MM. Fidelissima e Imperiaes passao sem novidade em sua importante saude 

S. M. Imperial o Duque de Bragança sahio a passeio às 7 horas da manhã, e recolheo-se no Paço ás 8. 

Á uma hora da tarde houve beijamão, estando SS MM Fiedelissima e Imperiaes accompanhados da Marqueza Camareira- Mor e das Damas de S. M. Fidelissima,a Duqueza de Terceira e D. Maria das Dores de Souza Coutinho – do Ministro d´Estado dos Negocios da Marinha - dos Camaristas, Marquez de Santa Iria e Almeida – dos Marechaes do Exercito, Duque de Terceira e Marquez de Saldenha.







Paula Oliveira

O Desastre da Ponte das Barcas

Está em depósito no Museu Militar uma obra alusiva ao Desastre da Ponte das Barcas, que ocorreu no Porto em 29 de março de 1809. O drama ligado à destruição da ponte sobre o rio Douro é um dos factos marcantes da II Invasão napoleónica, chefiada pelo general Soult. Durante o 1.º terço do séc. XIX circularam imagens do acontecimento em gravura, mas a maquineta da Ponte das Barcas do MNSR é a única peça de escultura coeva que chegou até nós.

O Desastre da Ponte das Barcas (maquineta). João José Braga (at.)
Barro policromado, 46 x 67 x 18 cm

A catástrofe é vista do rio Douro, com o cais da Ribeira em 1.º plano tendo por fundo o casario pintado na madeira, desde a muralha até à entrada da Ponte das Barcas. A porta da Ribeira com a sua guarita e a escada de embarque são dados de pormenor fiéis ao local. Num dos arcos do muro, o escultor reproduziu o brasão das armas do reino e bispado. Os franceses avançam chefiados por um oficial-general, em perseguição de militares e civis. O ataque é posto em evidência no cais, onde há corpos caídos no areal da margem. A pilhagem é descrita em pormenor: há que descobrir os soldados franceses roubando as botas a um civil, um deles a dar uma coronhada num resistente e, mais ao longe, um granadeiro a desferir uma cacetada num paisano… Sobre o muro há mais violência: uma freira tenta fugir enquanto cidadãos são roubados (relógio, saco de moedas…).

O tratamento primoroso das figuras justifica a atribuição da peça a João José Braga, o mais conhecido barrista portuense da época romântica, de quem se diz ter tido um fim trágico: morreu de Cólera Morbus durante o Cerco do Porto. Para edifícios trabalhou também na grande escala, como autor dos modelos da Fé, Esperança e Caridade da fachada da Igreja dos Terceiros de S. Francisco, além de ter modelado os Quatro Evangelistas da paroquial de St. Ildefonso e as imagens dos Passos da Paixão da Igreja de Matosinhos[1].

Registo de casamento de João José Braga e Gertrudes Magna
ADL, Casamentos S. Mamede, 1793 - 1816, f. 103

Mas quem foi afinal João José Braga? 

Era natural da freguesia da Sé, onde nasceu em 1 de otubro de 1778, sendo filho do bracarense António José Braga e de Ana Maria de Santa Rosa, natural da Sé; os avós paternos eram daquela cidade nortenha, António Agostinho Braga e sua mulher Ursula de Sousa – freguesia de S. José, Braga[2]. Em 25 de julho de 1803 regista-se o seu casamento com Gertrudes Magna – freguesia de S. Mamede, Lisboa[3] (fig. 2). O escultor regressou ao norte onde constituiu família na antiga Rua da Ourivesaria, em S. Nicolau – Porto. Foi nesta zona ribeirinha que lhe nasceram três filhos: Joaquina em 25 de fevereiro de 1808, a filha Florinda em 11 de janeiro de 1810 e o mais novo José em 29 de junho de 1812[4]. Não foi possível encontrar o registo de óbito do artista mas está aberta uma nova linha de estudo sobre a vida e relações do escultor com o meio artístico.

O artista pertencia ao escólio das artes liberais a que se refere Agostinho da Costa na sua Descrição Topográfica e Histórica da cidade do Porto, a obra de referência de 1788-89 onde temos de procurar o entorno das suas produções escultóricas[5]. E tendo vivido em S. Nicolau, como agora sabemos, estabeleceu-se numa das melhores zonas comerciais, que aquele presbítero (bracarense) descreve assim ao destacar as igrejas paroquiais[6]:

“(…) a Igreja de São Nicolau, além de ser sagrada, é a mais rica de todas, por causa do grande número de comerciantes que dela são fregueses e se desvelam em desempenhar as suas funções (…) Seguem-se as igrejas da Senhora da Vitória e de Santo Ildefonso (…)”.

Terá sido deste ponto de vista muito próximo, a partir da zona da Ribeira do Porto, que o jovem João José Braga pôde assistir, no dia 29 de março de 1809, ao fatídico desastre da Ponte das Barcas.

Igreja de S. Nicolau. In Edifícios do Porto em 1833.
AHMP, D-ALB-GRA-10-057



[1] Ver mais incluindo outras fontes em SANTOS, Paula Mesquita Leite – “O Desastre da Ponte das Barcas”. As Belas Artes do Romantismo (cat. exp. MNSR), 1999, p. 216; ver também “Escultura romântica”, pp. 46-76.
[2] ADP, Batismos Sé 1778-80, f. 11.
[3] ADL, Casamentos S. Mamede 1793-1816, f. 103
[4] ADP, Batismos S. Nicolau 1808-14, fls. 100, 137 e 182v.
[5] COSTA, Agostinho Rebelo da (P.e) – Descrição Topográfica e Histórica da cidade do Porto, 1788 (reed. Frenesi.2001), p.
[6] Idem, p. 99.

Paula Mesquita Leite Santos